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Mulheres deprimidas

Autor: Henrique Pagnoncelli
Fonte: Revista Duo (maio/junho/2013)

A depressão, doença que atinge 350 milhões de pessoas em todo o mundo, a maioria mulheres segundo a OMS - Organização Mundial de Saúde -, será em 2030 a doença mais incapacitante do planeta. A depressão é muito mais do que uma tristeza eventual. Quem padece de depressão, leva a vida como um fardo, troca o papel de protagonista de suas ações pelo lugar na plateia de um expectador sem interesse algum em viver. Quem desiste do comando de sua vida, precisa de ajuda rápida.

Já é consenso nos consultórios médicos de que a doença exige a combinação de esforços terapêuticos envolvendo medicamentos e o apoio através da palavra. É neste sentido que a terapia vem contribuindo para que as pessoas lidem com esta emoção, mantenham os sentimentos mais infelizes sobre controle e através do autoconhecimento obtenham a chave para uma mudança interior. Uma vez conhecidas as causas determinantes da depressão, menores serão as probabilidades de que esta doença venha a dominar o cotidiano de quem as identificou.

Não é este o único benefício que o autoconhecimento pode trazer para quem perdeu o prazer de viver. No aprendizado de si mesmo, as pequenas conquistas encorajam uma nova vida longe da dependência dos medicamentos. ?Esta busca do eu interior, onde as fragilidades são expostas e aceitas, é um grande passo para que males da alma como a depressão sejam curados. A partir do momento de que nos damos conta das razões que nos levaram a ter determinados tipos de sentimentos, fica muito mais fácil trilhar o caminho do despertar para a vida com coragem e segurança?, avalia o professor Henrique Pagnoncelli, especialista em psicologia transpessoal e presidente do Instituto Atlante de Blumenau, fundado há 20 anos e que vem acompanhando em todo este período casos de depressão entre mulheres.

A rotina em consultório tem mostrado que muitas mulheres estão em estado de depressão e muitas vezes não se dão conta, observa Pagnoncelli. O que para elas, muitas vezes é uma tristeza profunda, é na verdade um quadro de depressão que precisa de auxílio através de medicamentos e de forma paralela da ação da terapia, para que não se tratem apenas os sintomas, mas se chegue às causas, adverte. São casos, onde o mundo desabou para inúmeras razões: perdas, separações, envelhecimento, filhos que seguem a vida e saem de casa, problemas de saúde, entre outras causas. ?Muitas mulheres já chegam ao consultório com o problema identificado, mas sabemos que a depressão é uma doença complexa. Sozinhas, as pessoas não conseguem reagir e há uma série de sintomas que, juntos, acusam a gravidade do quadro?.

Não pode confundir tristeza profunda com depressão. No segundo caso, há um desinteresse geral pela vida, não há mais vontade de viver. São inúmeros os sintomas de depressão: a vida não tem graça, fica sem sentido, a paciente apresenta desânimo, pessimismo, melancolia, choro, fobias. Há uma falta de energia vital. A falta dessa energia é a morte. Daí porque a mulher depressiva, não vendo sentido na vida, sem motivação, pensa na morte e muitas tentam suicídio. ?É que na depressão a mulher perde suas referências, e talvez a primeira dessas perdas é a ligação com sua própria essência, de não ter mais identidade, sentir-se sem rumo, perdida. Outro sintoma, cada vez mais frequente, é transtorno bipolar, a pessoas vai de um extremo a outro, de uma alegria sem limites a uma tristeza sem fim?, revela Pagnoncelli.

Além das consequências físicas, que é a perda da saúde mental, a depressão pode levar a outras situações ainda mais desastrosas como a falta de concentração no trabalho. ?Esta mulher deprimida, se não buscar tratamento e, rápido, vai também perder o emprego?.

Se no mundo do trabalho não há lugar para a apatia da depressão, as mulheres deprimidas serão privadas também do convívio social. ?O desinteresse pela vida as afastará naturalmente das amizades e também das relações amorosas. Este isolamento emocional e social agravará ainda mais o problemas?, diz Pagnoncelli.

Quando este sentimento de falta de vontade de viver persiste e sai do controle é a hora de agir. A busca pelo auxílio médico, através de medicamentos é necessário porque há um processo de desestabilização cerebral e isso apenas os medicamentos podem equalizar. O auxílio médico psiquiátrico se faz necessário. Mas a terapia, sob suas várias abordagens, é indispensável. A pessoa precisa falar do que a perturba, contar a sua história, a história de sua grande família para contextualizar a origem do problema. Todo fato tem seu contexto. Descobrir a história por trás da história contada pela pessoa. Nada mais pode ser visto de forma fragmentada, pois tudo é interconectado.

A terapia nada mais é do que passar a limpo nossas memórias. ?Em 20 anos de atuação, podemos afirmar que o autoconhecimento é o grande responsável pela libertação de mulheres destes males. Através do autoconhecimento, a mulher experimenta a elevação da autoestima, do amor próprio e passa a existir para si e, consequentemente, renasce em sua essência para o mundo?.

A jornada rumo ao que chamamos de despertar, não é de um dia para o outro e envolve entrega das mulheres deprimidas. ?É uma complexa teia, que é reconstruída com detalhes, resgatados em momentos atuais e em remotas épocas da infância e até da vida intrauterina. Todos estes dados uma vez coletados e analisados, levarão às causas da depressão?. A condução do profissional frente a este conteúdo de informações é de extrema importância para trazer a tona os reais motivos que levaram pacientes, em alguns casos, durante uma vida inteira a apresentar depressão.

 Importante não é apenas ter acesso ao conteúdo das informações, mas o que fazer com estas informações, visando a conscientização da paciente sobre as causas que a levaram a se comportar e sentir o mundo de forma depressiva. ?Quando nos conhecemos e entendemos alguns processos em nossas vidas, sabemos lidar com estas memórias e não mais incorreremos em estados mentais depressivos. Nada é imediato, exige esforços do profissional e, acima de tudo, da paciente, em, com certeza, a recompensa deste esforço no mergulho do nosso próprio eu, será a liberdade interior?, observa Pagnoncelli.



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