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Autossabotagem: o medo do novo

Autor: Flávio Bastos
Fonte: Site Somos Todos Um

Sigmund Freud, o pai da psicanálise, escreveu certa vez em um artigo chamado "Os que fracassam ao triunfar", onde ele afirma que algumas pessoas não são capazes de aproveitar a satisfação que uma conquista pode trazer, sentindo apenas angústia e ansiedade, como se fosse um medo de ser feliz. Autossabotagem é um ciclo vicioso e nocivo, já que uma parte de si mesmo quer se sentir feliz, enquanto a outra sente culpa por esse desejo.

Muitos de nós tem uma grande dificuldade de aceitar o novo. No entanto, cada indivíduo é a vida que se movimenta. A busca pelo avanço, como registra Gurdjieff, inicia-se por um estado de insatisfação com o que somos e um desejo forte por sermos melhores e colocarmos um ponto final no sofrimento, medo e angústia.

Contudo, em alguns casos, por mais paradoxal que pareça, o desconforto psíquico, que esconde em seus bastidores a experiência da dor e do sofrimento, serve como "conforto", ou seja, um estado de coisas mantido pela mente com medo da mudança interior, do novo. Este empobrecimento que interfere na qualidade de vida pode permanecer por tempo indeterminado, até o protagonista de sua história de vida se conscientizar de que a quebra do atual paradigma comportamental é a solucão para o seu problema.

Baseado na minha experiência psicoterapêutica interdimensional, entendo que as pessoas são o que são, e somente "serão" com o processo de autotransformação. Fato que exige do individíduo acreditar e confiar na possibilidade de uma mudança interior que o liberte da zona de conforto que tornou-se a sua vida.

"Muitos destes comportamentos destrutivos estão quase fora do domínio da consciência", afirma o psicólogo americano Stanley Rosner. "A autonomia, a independência e o crescimento pessoal são apavorantes para algumas pessoas porque indicam que elas não poderão mais argumentar que suas necessidades precisam ser protegidas",completa o autor do livro "O Ciclo da Autossabotagem".

Algumas verdades que são interpretadas durante o processo terapêutico, podem repercutir como ameaça para a zona de conforto do autossabotador, mesmo que ele esteja convicto da necessidade de ajuda para encontrar a solução de seu problema.

Recentemente, tratei de um caso em que a pessoa tinha plena consciência de sua situação, cujo histórico revelava repetidas experiências de autoboicote decorrente de traumas infantis que bloqueavam o seu crescimento pessoal. No entanto, à medida que as interpretações foram surgindo para que o indivíduo elaborasse uma libertação de nível consciente, o inconsciente puxou-o de volta para a zona de conforto através de uma nova autossabotagem. E o ciclo, com certeza, manteve-se gerando ganhos secundários à pessoa que teve medo de quebrar o próprio paradigma comportamental. 

Muitas pessoas fazem como o caracol que depende de sua casca para proteger-se dos perigos externos. Passam o tempo, às vezes a vida inteira, limitados pelos seus temores de desafiar o desconhecido além de suas áreas de proteção criadas pelos bloqueios internos. Queixam-se da vida, sentem-se vítimas de situações, entram em depressão, procuram ajuda nas terapias, mas algumas não conseguem se libertar do ciclo vicioso e retornam para o estado de coisas de suas vidas. E isso acontece bem mais do que imaginamos, pois o desconforto das verdades reveladas pode doer mais que as verdades não reveladas à luz da consciência.

O autoboicote tem muitas origens e também muitas formas de se manifestar. Para sabermos como isso se processa internamente, podemos começar com uma pergunta: "O que eu sei de mim mesmo que preferia não saber?". A resposta deve gerar em nós um processo, o autoconhecimento. É através dele que começamos a desmontar o mecanismo de autossabotagem.

Nesta lógica, a ligação com o passado é tão intensa que não conseguimos nos desligar de padrões de comportamento que nos acompanham de vivências passadas. Portanto, na abordagem psicoterapêutica, devemos considerar que trazemos um modelo comportamental de vidas pretéritas que pode ser alterado para melhor ou para pior, conforme as experiências infantis que tivemos na relação com os pais biológicos ou substitutos da vida atual.

Dissociar o foco do eu interdimensional, em benefício do ego exclusivamente dimensional, é limitar o autoconhecimento a um nível superficial da existência humana, sabotando um conhecimento que poderia -através da regressão de memória extracerebral- acrescentar profundidade e qualidade nas descobertas em relação a si próprio e em relação à natureza humana.

O ser dotado de excepcional capacidade de expansão consciencial se sabota quando sai de seu propósito existencial. Caminho que passa pelo processo de autoconhecimento que aponta onde queremos chegar e quais os caminhos e métodos que iremos escolher para alcançar e avançar. Somente diante desta clareza de intenções aplicadas à prática do cotidiano, é que teremos a certeza de que começamos a alterar um padrão comportamental pela influência de um novo foco: o foco do crescimento integral e sem limites para aquele que deseja expandir a sua consciência além das fronteiras do ego.


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